há 75 anos, guernica



Vou-te contar a minha história, meu filho, para que percebas porque sou esta velha tonta e triste que aqui vês. Nos finais de Abril de 1937, num conluio entre Hitler e Franco, a aviação nazi sobrevoou a minha terra e arrasou à bomba muitas casas e muitas vidas, entre elas as do meu marido e da minha bebé. No dia em que a mataram, fazia ela um ano, dois meses e nove dias. Se me salvei eu, se é que se pode chamar a isto salvar, foi porque estava no hospital, em Bilbau, a convalescer de uma pneumonia. Por compaixão ou falta de coragem, ninguém me disse no hospital o que se tinha passado. Mas o meu coração não me mentia, só uma desgraça muito grande poderia ter impedido o meu homem de me vir ver, o meu homem e a minha filhinha, tanto mais que eu tinha estado tão doente.

No primeiro de Maio disseram-me que estava livre de perigo, que me podia ir embora. Carregada com a bagagem, alcancei a estação de camionetas a tremer de fraqueza. Ou de medo. Os olhares que me lançaram, quando pedi um bilhete para Guernica, puseram fim às minhas esperanças e incertezas e desatei num pranto descontrolado, sem saber sequer os horrores que me esperavam.

Aquela foi a mais longa, a mais penosa viagem da minha vida. Aquele foi o início de uma existência que, digo-te sem queixumes de velha, não valeu a pena. Ainda hoje me lembro de cada segundo, tão difícil de vencer como um século, em que me ia inteirando aos poucos e poucos do que se tinha passado pela voz de outros passageiros que me acompanhavam no choro porque, também eles, nada sabiam dos seus e temiam o pior.

Essa tortura que vivi não esmoreceu até hoje. Todos os dias e noites, todas as horas e minutos para te dizer a verdade, não me sai da cabeça aquela viagem e a chegada a Guernica, onde caminhei com terror por um inferno de destroços e de cadáveres.

Já sem a mala, que abandonei sei lá onde, cambaleei como doida por ruínas onde ainda se escavava para desenterrar colchões, camas, mesas e corpos desmembrados, calcinados, desfigurados, mas que por instinto ia identificando com pavor crescente, tão alucinada estava que por várias vezes perdi os sentidos. Se queres que te diga, continuo louca desde então, fiz foi os possíveis e os impossíveis para mascarar a demência e não ser internada no mesmo hospício para onde tanta gente que eu conhecia foi atirada e não mais voltou.

Naquela que tinha sido a casa do meu irmão Chartiko vi, por entre paredes em derrocada, a panela que estava ao lume quando começaram os bombardeamentos e o ferro com que a minha cunhada Mertxe engomava um vestido azul da filha de dois anos que, tal como a minha, não teve tempo para conhecer a vida. E os seus poucos brinquedos, uma boneca de trapos, uma roca, umas louças em miniatura, para ali estavam espalhados pelo chão, em pedaços.

Com o pânico e aquele cheiro de peste malina, vomitei até não ter nada no estômago, gritei tresloucada, tropecei em despojos de carne humana, fragmentos de uma felicidade para sempre ceifada como erva daninha por monstros que não perderam o sono, antes se vangloriaram de um feito que os iria deixar registados na história, quanto mais não fosse na história da ignomínia. Tudo em nome de Deus, tantas e tantas vezes se invoca o nome Dele em vão, tantos se têm servido Dele e do Seu nome para o bem e para o mal, o mais das vezes para o mal.

Nunca, meu filho, nunca por nunca ser tenhas que ver o que eu vi, sentir o que eu senti. Quando cheguei aos escombros da casa onde me fiz mulher e fui feliz como sol de pouca dura, uivei horas esquecidas, como uma cadela abandonada, os nomes do meu marido e da minha filha. Ninguém me respondeu. Até hoje, ninguém me respondeu.

Não tinha sobrado nada. Só um monte de tijolos em estilhaços, madeira carbonizada e meia dúzia de haveres que não quis recuperar, a não ser um retrato que tínhamos tirado à nossa menina no dia do baptizado, mal sabia eu que esse seria o seu primeiro e último sacramento. No meio de tanta devastação ali estava intacto, sem uma nódoa, um rasgão. Guardo-o até hoje, um dia mostro-to. Sinto, sei que foi a última coisa que o meu marido tocou antes de tentar fugir com a menina. Por isso, chama-me doida se quiseres, todas as noites beijo a fotografia com a certeza de que os estou a beijar a eles, a desejar-lhes, do fundo do meu coração cansado, uma boa noite de sono. Onde quer que estejam à minha espera.

Ao fim de alguns dias, fui descobrir num cemitério cheio de mortos, e de vivos com vontade de morrer, as suas campas improvisadas. Por ali me fui deixando ficar tempos sem fim, indiferente ao calor do meio-dia e ao frio da meia-noite, sem me lavar, sem levar nada à boca, sem dormir, fingindo que aninhava a minha menina nos braços, que abraçava o meu homem, que brincávamos os três entre risos como costumávamos fazer depois do jantar, antes de a metermos no berço.

Não chorava. Já não chorava. Nunca mais chorei. Lágrimas deixei de as ter, antes esta angústia que não me larga e que me fere como punhaladas, chicotadas em carne viva. Comparada com o que sinto, a tristeza não é nada, meu filho. Nada.

Comentários

trepadeira disse…
Excelente.
Não resisti a colocar o link no trepadeira.

Um abraço,
mário
Manuel Cruz disse…
À vontade, Mário!
Anónimo disse…
Esta história é incrivelmente triste. Só pode ser verdadeira... :(
Joana

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