a ameaça de cavaco


Por Baptista-Bastos
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O dr. Cavaco disse e fez saber que não empossará o novo Governo, caso não haja maioria. O dr. Cavaco dispõe dos instrumentos legais que lhe permitem dizer tal coisa, mas sobressaltou muita gente. Não se discutem as razões; analisam-se as possibilidades. Seguindo as regras, o senhor pode nomear um Governo de ‘inspiração presidencial’ ou um ‘governo de gestão’, ou, ainda, manter, por dois meses, o mesmo Executivo, proceder a novas eleições, após consulta aos partidos e ao Conselho de Estado. Qualquer das hipóteses, releva, sempre, de um pequeno golpe palaciano. Já houve outros, com outras máscaras e procedências. O dr. Cavaco tomou esta decisão, se é que se trata de decisão (com ele nunca se sabe), depois de cansativa lengalenga sobre a necessidade de um conúbio entre o PS e o PSD. António Costa tem dito não a todas as propostas e sugestões, certamente pressionado pela ala esquerda do PS, e só então o dr. Cavaco surgiu com a conjectura derradeira. Os partidos ‘do poder’, expressão que irrita as pessoas de bem, porque acolhe somente dois, como se os outros, os quais perfazem alguns milhões de cidadãos, fossem uma escumalha. As pessoas estão fatigadas destas e de outras moscambilhas das democracias ocidentais, estruturadas para que sejam sempre os mesmos, com outras maquilhagens, a ocupar o poder. O dr. Cavaco deseja manter o esquema, e não há que fugir à suposição. Os movimentos Syrisa e Podemos resultam desse ‘cansaço democrático’ e dessa manigância da troca de cadeiras, como assinalou Tony Judt no notável ‘Tratado sobre os nossos Actuais Descontentamentos’, texto que fala das traições socialistas e sociais-democratas com pungente lucidez. Sabe-se que, em outras circunstâncias o PS e o PSD mancomunaram-se e o PS esvaziou de sentido o projecto inicial, seja lá o que ele foi. A ascensão de Costa deve-se, certamente, ao desgosto sentido por muitos militantes (e não só) das derivas de sucessivas direcções. Mas nem toda a gente acredita que o actual secretário-geral e os seus consigam alterar os atalhos por onde o PS tem tropeçado. Se é que, realmente, estão para aí virados. A vertigem que assinalou a vitória de Costa sobre Seguro está a esmorecer. E o dossiê dos economistas, apresentado como grande bisca do ‘novo’ PS, não convenceu toda a gente; pelo contrário.

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